Os experimentos chocantes do médico que acreditava na cura gay

Há algum tempo foi falado sobre a tal “cura gay” e, basicamente, como orientação sexual não é doença – nem opção, sempre bom lembrar –, hoje já somos esclarecidos o suficiente para saber que não se trata de algo passível de cura. Nem sempre foi assim, no entanto, e muitos rituais malucos já foram realizados contra homossexuais.

Conhecer essas propostas de cura é uma maneira de entender como a intolerância já promoveu os mais diversos tipos de crueldade em nome da Ciência e de uma “sociedade correta”. O Daily Mail reuniu alguns dos experimentos realizados na década de 1970, envolvendo choques elétricos, na tentativa de “curar” a homossexualidade e algumas doenças mentais. Confira:

O paciente B-19

 

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Em 1970, um procurador-geral do estado de norte-americano de Luisiana autorizou a realização de um experimento bizarro. A finalidade? “Curar” a homossexualidade de um paciente que foi chamado apenas pelo codinome B-19. Na época, ele tinha 24 anos de idade e, com uma série de eletrodos implantados em sua cabeça, teve que fazer sexo com uma prostituta de 21 anos, contratada especialmente para o experimento.

A ideia era basicamente transformar o prazer sentido pelo jovem em uma forma de torná-lo heterossexual. Na ficha médica do rapaz, constava que ele era solteiro, branco, nascido de uma gestação normal, membro de uma família de militares e com uma infância considerada bastante infeliz. De acordo com os mesmos documentos, o jovem se alistou no Exército, mas foi expulso depois de um mês por apresentar “tendências homossexuais”.

Em seu histórico constava também que o jovem tinha usado drogas por três anos e praticava atos homossexuais há cinco anos. Por causa do uso dos narcóticos, apresentava episódios de epilepsia na região cerebral do lobo temporal. O jovem era depressivo, tinha impulsos suicidas, era inseguro, procrastinador e narcisista. Segundo o Médico, B-19 havia sido manipulador e coercitivo em todos os seus antigos relacionamentos afetivos.

 

“Tratamento”

 

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Após alguns anos, B-19 foi internado em uma clínica psiquiátrica em Nova Orleans e acabou sendo submetido a tratamentos drásticos por meio de implantes de aço inoxidável em nove regiões de seu cérebro, com fios que saíam pelo seu crânio. Depois de colocarem os implantes, os médicos tinham uma espécie de controle remoto, com o qual podiam transmitir choques ao cérebro de B-19.

Antes dos choques, no entanto, o jovem foi submetido a um filme que mostrava cenas de preliminares e de sexo entre um casal heterossexual. B-19 reagiu com raiva e repulsa, mas disse ter achado as cenas mais agradáveis depois das sessões de choques. Cada sessão durava 3 horas, e os choques eram dados quando o próprio B-19 apertava um botão – detalhe: eram em média 1.500 choques por sessão.

Após dez dias de tratamento, o jovem assistiu a mais um filme de conteúdo adulto, sem relutância. Durante a exibição, B-19 ficou sexualmente excitado, se masturbou e teve um orgasmo. Após o “tratamento”, o jovem dizia sentir vontade de manter relações sexuais com mulheres e, assim que foi autorizado, o moço se encontrou com a prostituta.

 

Ciência bizarra

 

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O médico Robert Heath.

A interação entre os dois ficou mais natural depois da primeira hora de “experimento”, fato que foi percebido principalmente pela reação da moça, que tirou suas roupas íntimas completamente e que, depois do sexo, ficou deitada ao lado dele na cama. Na sequência, o jovem foi encorajado a passar um tempo explorando o corpo da mulher com as mãos. Para a satisfação dos médicos, ele teve orgasmos.

A equipe médica de então achava que estava dando um grande passo ao acreditar ser capaz de estimular um comportamento heterossexual em uma pessoa homossexual – e olha que a escala Kinsey, que aborda diversos níveis de sexualidade, já tinha sido elaborada na década de 1950!

O responsável pelo experimento, Robert Heath, era conhecido por sua personalidade carismática e sedutora, a circular sempre com seu jaleco branco como se tivesse toda a autonomia científica do mundo. Psiquiatra e neurologista, Dr. Heath era fascinado pela região cerebral hoje conhecida como núcleo accumbens.

 

Psicocirurgia

 

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Para o médico, entender essa região cerebral seria uma forma de “desbloquear” o cérebro humano. Sua maior experiência como psiquiatria foi durante a Segunda Guerra Mundial e, a partir daí, logo passou a defender a ideia de que doenças psiquiátricas poderiam ser tratadas por meio de cirurgia, não de terapia.

Suas teses se sustentavam na medida em que ele conseguia algum resultado que julgava positivo, como alterações de comportamento após a realização de lobotomias – considerando que cada milímetro do cérebro é fundamental em termos de comportamento, emoções e respostas motoras, é de se esperar que tirar tecidos cerebrais, que é o que se faz por meio de uma lobotomia, possa provocar mudanças de comportamento. Na época, o procedimento era chamado de “psicocirurgia”, ou seja: o tratamento cirúrgico para doenças mentais.

A equipe de Heath passou então a trabalhar com a técnica chamada de “topectomia”, que retirava tecidos menores da região do córtex cerebral, para evitar danos maiores. A essa altura de sua carreira, o médico já dedicava muito do seu tempo a estudar a esquizofrenia que, para ele, era o maior desafio da Medicina em termos de saúde mental.

 

Esquizofrenia

 

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Heath percebeu que seus pacientes esquizofrênicos não apresentavam qualquer melhora depois da lobotomia ou do topectomia e, por isso, ele acreditava que a doença afetava regiões mais profundas do cérebro. A partir daí, começaram suas investigações sobre a região do subcórtex. Para Heath, a esquizofrenia era um problema biológico, não psicológico.

Em 1949, Heath se mudou para Nova Orleans e, um ano depois, havia conseguido um investimento de US$ 400 mil do governo dos EUA para abrir uma instituição psiquiátrica com capacidade para 150 internos. A conquista fez do médico uma das principais referências em saúde mental de todo o estado de Louisiana.

A essa altura, seus experimentos psiquiátricos eram todos custeados pelo governo norte-americano, o que facilitou a vida do médico. Quando precisava de voluntários saudáveis, tinha acesso livre aos presidiários de um presídio em Angola.

 

Prazer

 

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Em seu instituto de psiquiatria, o médico exigia que todos os terapeutas que trabalhassem lá estudassem e fizessem análise. O foco principal das pesquisas era a forma como o cérebro humano sente prazer. Quando começou seus experimentos de “cura gay”, em 1970, contava com a ajuda de outros 200 profissionais e estudantes de Medicina. A essa altura, o médico já era reconhecido por ter desenvolvido métodos menos invasivos de implantar eletrodos no cérebro humano.

Seus experimentos com eletrodos eram inicialmente utilizados em pacientes com esquizofrenia, câncer e dores crônicas. Ainda assim, de acordo com o professor Herbert S. Gaskill, da Universidade de Indiana, os resultados não eram conclusivos nem tinham um “valor inestimável”, como afirmava Heath.

Mais tarde, os usos de eletrodos feitos por Heath foram considerados arbitrários, uma vez que funcionavam apenas em animais, mas chegaram a causar feridas, convulsões, infecções e até a morte de alguns pacientes. Isso sem falar nas reações durante os choques: os pacientes agiam com agressividade, rasgavam as próprias roupas e imploravam para que aquilo parasse.

 

Sem resultados

 

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Os experimentos com eletrodos foram conduzidos por muito tempo, e o que se observou foi que, em longo prazo, os riscos desse tipo de procedimento eram muito maiores do que qualquer benefício imaginado por Heath. De 22 pacientes submetidos aos choques, oito tiveram suas ondas cerebrais permanentemente alteradas – metade deles voltou ao normal, mas a outra metade permaneceu com comportamentos estranhos.

Após uma série de tratamentos desse tipo em pacientes esquizofrênicos, Heath continuou seus experimentos em pacientes como B-19, que poderiam ativar os choques centenas de vezes em si mesmos para sentir prazer. A partir daí, o médico esperava encontrar tratamentos para outras doenças e, inclusive, a “cura gay”.

Nessa época, a legislação para esse tipo de experimento era muito vaga e diferente da que temos hoje. Outros médicos também implantavam eletrodos em seus pacientes, mas apenas por alguns dias – já os pacientes de Heath ficavam anos com os implantes cerebrais.

 

Longa carreira, muitas dúvidas

 

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Ao longo de sua carreira, o médico publicou pelo menos 425 artigos a respeito de seus experimentos – entre eles, os que pretendiam transformar homens homossexuais em heterossexuais. Nesse caso, a ideia era fazer com que os gays passassem a sentir atração pelo sexo oposto, em vez de repulsa. Técnicas similares eram utilizadas para o tratamento de mulheres “frígidas”.

Anos depois o trabalho do médico, que já era amplamente conhecido em todo o país, começou a ser questionado por outros cientistas que simplesmente não conseguiam comprovar seus métodos e afirmavam que suas conclusões eram infundadas. Em um dos experimentos, por exemplo, Heath dizia que poderia conduzir comportamentos de esquizofrênicos ao injetar determinada substância no cérebro de seus pacientes.

Acontece que anos mais tarde se descobriu que a sustância nunca existiu e que as pessoas agiam daquela maneira, na verdade, por uma questão de medo. Elas sabiam o que o médico esperava e, com medo do que pudesse acontecer caso não agissem como tal, simplesmente se comportavam de forma diferente.

 

Conclusões modernas

 

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Além do mais, em termos de homossexualidade, outros cientistas conseguiram comprovar que, ao contrário do que Heath imaginava, o comportamento homossexual era determinado com base em informações genéticas: há duas fitas de DNA ligadas à homossexualidade em homens, confirmando aquilo que ainda hoje muita gente não entende: é orientação, e não OPÇÃO sexual. De acordo com o pesquisador Qazi Rhaman, nossa carga genética é responsável por 40% da nossa orientação sexual.

Heath foi criticado em vários aspectos ao longo de sua carreira. Ao fazer experimentos com pessoas africanas, dizia que era mais barato usar negros do que gatos em seus laboratórios. Para ele, tudo era justificável contanto que suas teorias pudessem ser colocadas em prática, ainda que a maioria delas não passasse de formas cruéis de tortura.

Ainda assim, os métodos desenvolvidos por Heath norteiam a medicina atual, de certa forma. Médicos de hoje ainda apostam em terapias de choque para o tratamento de desordens psiquiátricas – jamais, no entanto, se pensa em “curar” a homossexualidade como foi feito com B-19, até mesmo porque orientação sexual não é uma doença, e se tem uma coisa para a qual os estudos desse médico serviram foi para comprovar isso.

 

Fonte: Mega Curioso


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