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7 de março de 2019

Segundo paciente sem rastro de HIV depois de um transplante de células-tronco


Este caso, similar ao do chamado ‘paciente de Berlim’, está há 18 meses livre do vírus, sem tomar antirretrovirais.

 

O vírus HIV é um ás da camuflagem. Infecta células saudáveis e se integra em seu material genético para passar despercebido e não dar as caras. Ele se esconde nas próprias células infectadas e impede o sistema imunológico de encontrá-lo e eliminá-lo. Essa é sua melhor tática de sobrevivência, e não se sai mal. Os antirretrovirais para combatê-lo estão se tornando mais eficazes, têm menos efeitos colaterais e reduzem o vírus à expressão mínima. Mas o HIV nunca desaparece de todo e permanece em uma espécie de caverna onde se abriga (reservatório viral), células infectadas latentes no organismo. É por isso que a cura hoje não existe. Exceto em um caso – o chamado paciente de Berlim, Timothy Brown, que está há 11 anos sem HIV depois de um transplante de células-tronco – e um segundo em fase de avaliação: em um consórcio internacional do qual o centro de pesquisa IrsiCaixa Barcelona participa foi identificado outro paciente que, após um transplante de células-tronco, parou de tomar antirretrovirais e há 18 meses o vírus não é detectado. Os médicos, prudentes, ainda falam de remissão, não de cura.

 

“É algo incrível. O paciente de Berlim não era um caso circunstancial. Temos um segundo caso. Não queremos falar de cura, pois em outros casos em que o tratamento foi interrompido, o vírus rebrotou”, observa Javier Martínez-Picado, pesquisador do IrsiCaixa e colíder do consórcio internacional IciStem, que publicou a descoberta na revista Nature. Com suas diferenças, este segundo paciente replica o que foi alcançado com o paciente de Berlim, Timothy Brown, o homem soropositivo que, depois de se submeter a um transplante de medula óssea – onde se encontram as células-tronco – para se curar da leucemia, foi retirado do tratamento antirretroviral e o HIV, longe de reviver, desapareceu.

 

No transplante estava então parte da explicação do caso de Brown. O tratamento para leucemias como a sua ou outras doenças hematológicas semelhantes começa com uma quimioterapia potente que destrói a medula óssea, onde se aloja o tumor maligno e é, por sua vez, um dos reservatórios de HIV. A químio fulmina, ao mesmo tempo, as células tumorais e as células infectadas latentes. Em seguida, com um transplante de células-tronco de um doador saudável, a medula é reconstruída com um exército de células saudáveis, a doença hematológica é curada e o HIV, eliminado.

 

Mas, além do fator decisivo que foi o transplante, Brown tinha a particularidade de portar uma mutação em um dos dois alelos do gene CCR5 Delta 32, um erro genético que impede o vírus de penetrar na célula. Quando a mutação, que afeta 1% da população europeia, está nos dois alelos de cada gene, o HIV não consegue abrir as comportas para entrar na célula. O paciente de Berlim recebeu no transplante células-tronco de um doador que tinha essa mutação e já está sem o vírus há 11 anos.

 

O novo caso é um homem na Grã-Bretanha diagnosticado com HIV em 2003. Em 2012 iniciou a terapia antirretroviral e, logo depois, foi diagnosticado com linfoma de Hodgkin. Em 2016, foi submetido a um transplante de células-tronco. Ao contrário de Brown, este paciente não tinha nenhuma cópia defeituosa do gene CCR5 Delta 32, mas recebeu as células de um doador com a mutação. Passados 16 meses da cirurgia, os médicos do hospital de Londres onde foi tratado retiraram o tratamento antirretroviral e, desde então, está há um ano e meio livre do vírus.

 

A presença do HIV não foi observada no paciente de Londres nem com as ferramentas de detecção mais precisas disponíveis. Essa era precisamente a contribuição do IrsiCaixa: medir a carga viral do paciente com os dispositivos mais sensíveis. “Analisamos como sua sorologia e seus anticorpos estão desaparecendo, de modo semelhante ao que foi observado no paciente de Berlim. Em uma pessoa com HIV, se o tratamento é interrompido, o vírus rebrota depois de duas semanas. Mas, neste caso, 18 meses depois, nessa pessoa permanece indetectável”, diz a dra. Maria Salgado, coautora do estudo. O Irsicaixa, patrocinado pela La Caixa e pelo Governo da Catalunha, é a única instituição espanhola que participou do estudo.

 

Apesar da euforia desta descoberta, os médicos ainda ponderam os resultados “não são passíveis de escala” para a população em geral com HIV e muito menos é viável realizar um transplante de medula para curar o HIV. “Este tipo de transplante é um procedimento de alto risco, só recomendado para doenças hematológicas graves. Não faz sentido sujeitar ao risco de morte um paciente com uma expectativa de vida normal com HIV, só para dizer que se curou do vírus”, conclui Bonaventura Clotet, diretor do IrsiCaixa. Na verdade, a escolha do doador em um paciente com HIV, como em qualquer outro caso, prima pela compatibilidade e a probabilidade de sucesso na cura da doença hematológica, e não na coincidência de que o dador tenha a mutação do gene CCR5 Delta 32. “O objetivo não é fazer transplantes de células-tronco para pacientes com HIV, mas buscar mecanismos de remissão do vírus”, acrescenta Martinez-Picado.

 

Os especialistas também salientam que, à parte a influência do transplante e a presença da mutação, há outros fatores que podem favorecer o desaparecimento completo do vírus. Por exemplo, a doença do enxerto contra o hospedeiro, que sofreram os respectivos pacientes de forma transitória. Esta doença ocorre após o transplante, quando as células do doador atacam as do receptor. Os pesquisadores suspeitam que as células saudáveis do doador poderiam fulminar, também, os linfócitos infectados adormecidos que formam reservatórios e ajudar, involuntariamente, a fazer o vírus desaparecer.

 

CASOS FRACASSADOS E OUTRAS PESQUISAS EM ANDAMENTO

 

O paciente de Barcelona. Em 2014, um paciente com HIV tem um linfoma e se submete a um transplante de células-tronco do cordão umbilical que tinha a mutação em ambos os alelos do gene CCR5 Delta 32. No seu caso, todos os exames indicavam que, três meses após a cirurgia, o vírus tinha desaparecido, mas o linfoma ressurgiu e ele morreu pouco depois por causa da doença hematológica.

 

Os dois casos de Boston. Em 2013, foram notificados em Boston dois casos semelhantes ao do paciente de Berlim. Os dois homens com HIV foram submetidos a um transplante de células-tronco e, em meados de 2013, estavam respectivamente havia 7 e 14 semanas sem o vírus, sem tomar antirretrovirais. No entanto, em 2014 foi confirmado que o HIV, que geralmente aparece em menos de um mês depois da interrupção da medicação, ressurgiu. Os médicos consideraram que o transplante retarda o reaparecimento do vírus.

 

O paciente de Essen. Este caso alemão também foi submetido a um transplante de células-tronco de um doador que tinha a mutação no gene CCR5 Delta 32, que funciona como um elemento crucial para que o vírus não penetre nas células saudáveis e as infecte. No entanto, pouco depois de ele interromper o tratamento antirretroviral, o vírus ressurgiu rapidamente.

 

Três transplantes sem mutação. Três outros casos de transplante de células-tronco que não tiveram a mutação no gene CCR5 Delta 32 também foram relatados. O vírus ressurgiu depois de 12, 32 e 41 semanas, respectivamente.

 

Os seis pacientes do IrsiCaixa. Em outubro de 2018, o IrsiCaixa participou de um estudo, publicado no Annals of Internal Medicine, em que se constatou que cinco pacientes na coorte do consórcio IciStem submetidos a um transplante de células-tronco sem a mutação CCR5 Delta 32 tinham o vírus indetectável. Enquanto os cinco casos tinham um reservatório indetectável no sangue, em um sexto paciente incluído nesta pesquisa foi detectado que os anticorpos virais haviam desaparecido completamente sete anos após o transplante. No entanto, estes casos não são comparáveis ao do paciente de Berlim ou ao de Londres porque nenhum destes cinco interrompeu o tratamento antirretroviral.

 

Pesquisas em andamento. No âmbito do consórcio internacional IciStem, há 38 pacientes com HIV transplantados com células-tronco. Destes, 16 estão há mais de um ano em acompanhamento, 4 foram submetidos a um transplante de células-tronco com a mutação CCR5 Delta 32 (entre eles está o paciente de Londres, o único que teve o tratamento interrompido) e outros 18 receberam células de um doador sem a mutação CCR5 Delta 32, e todos mantêm o tratamento antiviral (a este grupo pertencem os cinco casos relatados pelo IrsiCaixa na Annals of Internal Medicine de outubro passado).

 

 

Fonte: El País
Com informações da AFP